' E assim o tempo vai passando...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Do vício por música

Saiba você que, em alguma parte do mundo, haverá alguém ouvindo algo que não é desse século, ou lançado semana passada. Saiba você que, em qualquer lugar do mundo, haverá alguém ouvindo algo muito antigo com a mesma eferverscência que você está ouvindo aquela banda que lançou o primeiro disco ontem. Saiba que, em qualquer lugar que você for, vai encontrar alguém que deteste seu próprio século - em matéria de música - e, por isso, só escuta o som do tempo que vivia-se nas ruas cheirando pó, tomando LSD e indo a shows do Velvet Underground. Saiba que, em qualquer lugar do mundo, haverá alguém que irá provar por A + B que aquela sua nova banda preferida é, na verdade, uma merda. E ela vai te convencer, mas isso não vai te fazer parar de ouvir a banda. Porque, quer queira quer não, música é sentimento. E se ela te pega, por pior que seja (ou por mais que te convençam que ela não presta), não haverá saída. Porque gosto é gosto, e, algumas vezes, eles não são feitos para discutir.

Saiba você também que muitas discussões sobre música vão acabar com "Isso é uma merda" contra "Isso é muito bom". Mas isso, é claro, vai depender de banda, de disco e de época. 

Saiba que, em alguma parte do mundo, haverá alguém ouvindo nada - ou ouvindo o silêncio, apenas. Saiba também que há uma diferença entre ouvir o silêncio e não ouvir nada: a falta de música não significa que você não a está ouvindo. Afinal, mesmo que você escolha ficar no silêncio, ainda haverá música dentro de você, tocando sem parar, como uma vitrola que nunca desliga. A diferença é que, na vida,  você pode desligar o rádio. Já na cabeça, não é tão fácil assim se desligar da música.

Saiba que, não importa se no Brasil ou na Europa, Estados Unidos ou Japão, haverá alguém sempre com a cabeça cheia demais, pensativa demais, viciada demais para ouvir com cuidado, e absorver música. Ou simplesmente ocupadas demais para despertar o mesmo interesse que o seu sobre música. Entenda que essas pessoas estão interessadas em outras coisas - e que o mundo é maior do que a discografia do Bob Dylan que você acabou de baixar tão facilmente. 

Saiba que, não importa que álbum você escute, se ele foi lançado em 69 ou ano passado. O que importa é a energia, a vibe que você sente ao ouvi-lo. Saiba que música não precisa ter época. Música precisa ter feeling. E se você sentiu aquilo enquanto ouvia aquelas guitarras rasgadas, ou aquilo outro quando escutou aqueles pianos delicados, aconteceu alguma coisa. E, quando você menos espera, está lá, viciado em música.

Música que importa, que faz sentido. Que importa mais do que qualquer coisa nesse mundo.

Anti Social

Preciso te dizer que eu sou anti-social. Não gosto quando recebo visitas em casa. Não gosto quando alguém da família chega para "tomar um café" e fica até a hora do jantar/almoço. Aliás, essa situação eu tento evitar ao máximo na minha vida. É uma das piores de todas, pra mim: receber familiares em casa e ter de aguentar todo aquele lero-lero porre de família, porque Fulaninho fez isso e não deveria ter feito, porque Sicraninho está aprendendo a andar de bicicleta, porque Doninha está grávida de novo do terceiro filho... Por aí vai.

Papos assim nunca vão funcionar comigo, até quando é família de outra pessoa e algumas histórias parecem até ser legais. Mas não adianta: logo eu perco a paciência e tento desviar, de todas as formas, o assunto para algo que realmente interesse. Claro que assuntos assim não aparecem o tempo inteiro. E pior: eles nunca surgem naquela hora certa, exatamente quando você dá de cara com alguém que não tem o quê conversar com você. Nessas horas, o "assunto interessante" sai correndo longe e te deixa lá, vazio e sem esperanças, ansiando para que aquele momento passe.

Um dos lugares-comum que mais acontece esse tipo de impasse é em paradas de ônibus. Lá está você, ouvindo música no volume máximo, com seus novíssimos fones de ouvido, quando de repente chega aquela pessoa que você conhece, mas não conversa. É teu colega, estudou contigo em algum cursinho ou escola da vida, e de repente surge na tua frente com o maior sorrisão, pronto pra te cumprimentar como se vocês fossem amigos de longa data. Cara, isso não funciona. Ele pode até te abraçar com maior fervor, mas depois do "E aí, com você está?", a situação só tende a piorar.

Aqui, o lema de "na dúvida, fale sobre o tempo" do Takeda não funciona. Porque esse é aquele tipo de situação que você mexe nos bolsos, troca o peso das pernas, olha para cima, para baixo, para todos as laterais (numa forma desesperada de evitar o contato olho-a-olho com o indesejável ser ao seu lado), e solta aquele sorrisinho: "então...", visivelmente mostrando o quanto você quer dar o fora dali e seguir sua vida. São momentos que te atrasam, quase dando um imprevisível e incômodo Pause no ritmo de vida que você estava levando. A vida para do que estava fazendo antes ou pretendia fazer naquele instante para ser interrompida por uns dez, vinte (oh, meu deus) quarenta minutos  por alguém que não tem nada para falar com você.

Porque, na boa, convenhamos, falta de assunto no meio de uma conversa (ainda mais dois a dois) é uma das piores situações já criadas pela humanidade. E aí o único jeito é ficar preso as piores tentativas de engatar numa conversa, ou se perder nas esparsas amenidades tipo "como vai a faculdade?" "trabalhando, já?" "como vai o namoro?"... Daí para baixo.

Deste modo, eu me torno sócia do clube dos anti-sociais. Porque, sério mesmo, entre encontrar uma "persona non grata" e ouvir música sozinha na parada de ônibus, eu prefiro muito mais aumentar o volume e deixar que o John  Lennon exploda meus tímpanos (com o Walls & Bridges, de preferência). Aqui, o verdadeiro lema é do mestre Bukowski: "Não é que eu odeie as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto".

Com sono


Os primeiros raios da manhã atravessavam as janelas de vidro pintadas de vermelho e verde, refletindo formas irregulares sobre a mesa de madeira lotada de papéis rabiscados. Entre canetas e copos de café, cores e formas irregulares se espalhavam por cima da mesa, terminando por incidir sobre o cabelo dourado da menina. Ela tinha dezessete anos de noites em claro e sete de manhãs com sono.  

O quarto era só silêncio e suspiros. Deitada sobre o braço em cima da mesa, ainda segurando a caneca de café, ela adormecia entre pequenos montes de papéis com contos inacabados, rabiscos de desenhos incompletos, frases e palavras sem nexo. Por mais profundo que parecesse seu sono, não duraria muito – tanto que, logo quando sentiu o calor do sol na cabeça, acordou num susto. Entreabrindo os olhos e tentando não se mexer (para não perder o filete de sono), ela levantou da cadeira de madeira e caiu por cima das almofadas do sofá cama.

Tentava, desesperadamente, adormecer de uma vez por todas – por duas, cinco horas ininterruptas. Nunca conseguia. Estava nessa rotina dormente há pelo menos sete anos, desde que... Não gostava nem de se lembrar. As luzes vermelhas piscando voltavam a sua mente com força, e ela tentou desviar o pensamento colocando um travesseiro no rosto – empatando o sol.

Não adiantou. Como se vivesse o roteiro da mesma peça todos os dias, automaticamente e sem nenhuma expressão, ela se levantou e foi à cozinha, preparar um café. Voltou com a caneca soltando vapor, e mais uma vez se sentou à mesa. De frente para a máquina de escrever, ela fitava a manhã nascer lá fora, através das suas janelas de vidro verde e vermelho. Soltou um suspiro profundo, e na tentativa de tentar organizar (pela enésima vez) seus pensamentos, bebeu um gole de café, deixou a caneca de lado e pôs-se a digitar na máquina de escrever.

Dialogava o tempo inteiro com a página em branco. Escrevia uma linha, não gostava. Tirava o papel e amassava. Então escrevia outra, gostava e continuava. Mas no segundo parágrafo, desistia. Pegava o papel e tentava escrever a mão. Não funcionava. Não sabia por qual caminho seguir. Era difícil se decidir. Sentia tudo ao mesmo tempo, e imaginava fotografias, falas e diálogos soltos, sem nenhuma conexão um com o outro. Perdendo a paciência, se levantou da mesa e pegou sua caneca. Decidiu colocar música para tocar. Gostava de ouvir música clássica pela manhã – Bach ou Beethoven. Seu avô, falecido, dizia que música clássica ajudava os neurônios a trabalharem melhor. “Em sincronia”, dizia ele. Ela acreditava, e colecionava CDs de coletâneas com os maestros mais famosos do mundo.

Deixou que a Nona Sinfonia  fosse quebrando o silêncio do quarto em pequenos pedacinhos de orquestra, adicionando instrumentos aqui e ali, aos poucos aumentando de volume e grandiosidade. Nessa parte, ela não conseguia evitar o sorriso, e dava ritmo a seu passo por dentro da pequena casa. Agora a manhã já ia acordada, assim como seus vizinhos, que começavam a varrer os pequenos jardins, tapetes e calçadas em frente ao dela. Decidiu pôr um vestido e sair de casa. Do lado de fora, observou as seis casinhas coladas uma na outra, emparelhadas, diferentes apenas pelas cores: azul turquesa, azul clara, rosa forte, lilás e roxo. Nas duas primeiras, um senhor de idade e uma senhora de vestido florido bem usado varriam a frente das suas respectivas casas. 

Ela deu bom dia ao casal de melhor idade, e encostada na lateral da porta, terminou seu café. De repente, olhando para a divisão da sua porta - da sua casa - para a vizinhança, decidiu que não mais iria tentar dormir aquela manhã. Exatamente quando ela entrou de volta em casa, a Nona Sinfonia tinha seu momento mais clássico, em que um coral feminino toma a vez dos violinos. Assim, com um sorriso no rosto provocado pela música, ela decidiu finalmente se organizar.

Começou abrindo todas as janelas, deixando o apartamento arejado. Então foi direto à mesa de madeira, pegando de bolo todos os papéis que saberia que não mais iria usar - estavam ali apenas fazendo volume desnecessário. Enquanto arrumava suas coisas, o disco na vitrola tocava, atraindo olhares até mesmo dos vizinhos. "A Lisa acordou disposta hoje, ein, Harold?" comentou a senhora da casa azul clara. "É verdade. Tá até com as janelas todas abertas!" concordou o senhor da casa azul turquesa.

Lá fora, a manhã já ia disposta, e pela primeira vez nos seus dezessete anos de insônia, Lisa passava uma manhã sem sono. 

Romance antigo

Havia um deque largo e longo, suportando de uma ponta a outra o mar que insistia em tentar derrubar as toras de madeira fincadas na areia. Havia ondas, pequenas, que hora e outra soltavam espumas brilhantes, quase colocando formas estranhas para fora d’água. Havia aquela fileira de barracas recheadas de frutas de todos os tipos, havia lojinhas de suvenirs, artesanatos, brechós e livrarias esperando uma merecida visita mais demorada.

Havia bancos de madeira a cada cinquenta metros, virados para o mar, onde os casais se abraçavam. Era fim de tarde, apesar de ser muito tarde no meu relógio e o sol ainda causticava os rostos rosados dos homens e mulheres que por ali não paravam de ir de um lado para o outro. Ali, os séculos não passavam, o mundo não girava: como se o lugar, as pessoas, quem sabe até o clima frio e seco estivesse preso nos anos 50. E eu também estava lá.

E haviam as pessoas. Sofisticadas, ricas, bem vestidas. Mas também pobres e maltrapilhos. Casacos de pele e grandes cartolas caminhavam vagarosamente pelo deque, ignorando os muitos idosos sentados no chão, implorando por comida ou dinheiro. Vez ou outra, crianças corriam entre as pessoas, e um senhor bem vestido, de monóculo e relógio de bolso, gritava da porta da sua lojinha: “Pega ladrão!  Pega ladrão!”.

O cenário era agitado, mas as situações eram cotidianas: todos os dias, aquelas mesmas pessoas passeavam pelo deque ostentando suas riquezas, os mesmos velhos pediam dinheiro, as mesmas crianças corriam e os mesmos senhores chamavam a segurança do local para denunciar um furto. E todos os dias, casais se encontravam nos bancos de madeira, assistindo o sol se deitar no mar.

Assim, lá estava ele, sentado. Vestia um casaco e uma touca de lã cobria suas orelhas. Tinha as pernas sentadas por cima das mãos e balançava os pés como uma criança brincando no balanço. Lá estava ele, esperando. Era tão lindo.

Caminhei pelo deque, esbarrando nas pessoas, observando-as, procurando me distrair. Mas ele me hipnotizava. Homens lindos passavam por mim, olhavam para mim e sorriam timidamente. Eu só conseguia responder com um aceno de cabeça e seguir em frente, ao encontro dele.

Cheguei mais perto e toquei-o no ombro, num gesto que foi correspondido automaticamente, quando ele virou e sorriu para mim. O sorriso dele brilhava. Ele levantou-se, deu a volta no banco e parou à altura dos meus olhos. Sem dizer palavra, me abraçou, me desligando por completo da multidão transeunte atrás de nós, trazendo toda paz e felicidade de volta.

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Há tempos que não escrevia algo assim. Precisava me recuperar, ver se minha veia literária e descritiva ainda funcionava comigo. Pelo jeito sim, mas ainda há alguma coisa faltando - um mote principal pra cada história. Descrições e adjetivos já não fazem mais tanto sentido, mas ainda é um bom (re)começo.
Em uma destas madrugadas solitárias, sentei entre as páginas da minha vida. Elas estavam ali, todas espalhadas pelo chão do meu quarto, assim como as folhas que colorem o cinza da rua em seu outono. 
Não havia ninguém. Apenas eu e.. o que de mim escrevi. Os parágrafos pelos quais corri, e até aqueles que andei bem devagar, quase parando, evitando chegar ao final. Vi as partituras que certos dias me silenciaram, outras que de mim fizeram rio, e até aquelas que romperam as fronteiras da normalidade, e me fizeram um ser desatento, cantarolando por entre asfaltos e sorrindo para horizontes que só eu via. 
Parei diante das páginas dobradas, um pouco escondidas, logo abaixo de certos poemas. Ao abri-las, como um raio as lembranças vieram, e eu não sabia mais o porquê de estar alí. Não entendia porque continuavam firme e fortes, estendidas no meu chão, mesmo depois de tê-las confinado no fundo daquele precipício, dentro de mim. Mergulhei. 
E nisso, percebi-me em sorrisos, pretérito perfeito. Mais-que-perfeito. Porém, pretérito. 
E ele, como presente, alegra. Faz com que jogadas de cabelos desengonçadas te façam ficar linda, e se sentir bem. Muda qualquer problema banal do seu cotidiano, e o faz acréscimo. No sorriso. Nada importa, nada deve importar. A vida torna-se um soneto, a pagina de linhas perfeitas e calculadas, fazendo com que você sinta aquele gosto de novidade na boca, e aquele anseio por mais no coração. É divino. 
É passado. E como tal, prefere lanhar. Apontar os erros que te deixam com saldo negativo, e nunca mais como apenas mais uma maneira de ser feliz. Prefere deixar uma miniatura na sua cabeça, que cresce mais e mais a cada dia, e você sabe que virará um problema. Já é um problema. Um arrependimento, um desentendimento. Uma daquelas simples maneiras que a gente sempre acha para tentar se resolver, mas acaba piorando tudo. Apenas pelo simples fato de tentar fazer sumir o que foi bom, o que te deu vida. 
Não queria mais. 
O passado como presente é sorriso. O presente como passado.. a sua lembrança. O seu oposto. Passou.
E no meio das folhas, recordo: sou mar. 
Passado-sorriso, vire barco. Um frágil barco de papel. Ganhei uma frota de sonetos.
E pelas esquinas de algum lugar desconhecido, achei um rio. 
Siga, frota. Siga.
Seja o sorriso de quem te lê por fora, 
E não vive a sua ultima estrofe.
Você veio mais uma vez, com toda a sua doce melodia de verões passados, e disse que sentia falta das minhas palavras. Olhou-me com aqueles olhos virtuais, perdido no espaço que separa os ponteiros do nosso tempo, e pediu que eu escrevesse. 
Poderia ser sobre qualquer coisa mundana. Explorar as eternas voltas do ventilador que, só de olhar, me deixam tonta – ou quem sabe a tontura que sinto quando as nossas palavras se chocam. Poderia falar sobre a chuva que alaga a cidade, ou até de quando os seus pensamentos alagam os meus. Deixo esse trabalho contigo. 
Mas, nesse texto farei diferente. Dissecarei aquilo que tanto o assusta. 
Meu querido, querido meu. Falemos sobre o nada. 
Ele é tão complexo, mas tão complexo, que nunca sei quando está vazio de coisas cheias, ou cheio de coisas vazias. Não sei diferenciar se é o tudo que foi embora, ou se é uma incógnita invisível aos meus olhos, porém nítida ao meu futuro. Não sei se é aquilo que não posso ver, não sei se não quero ver. 
E continuando com todas essas verdades, aquelas que sonham vivendo em epifanias, rondam a minha mente, o meu mundo. É independende de qualquer opinião minha,é imune a qualquer ataque. 
Você, meu amor, teme o nada. Você aperta forte a minha mão para ter certeza de que está atravessando a rua comigo, e não com qualquer ilusão de ótica ou alguma outra pessoa . Você teme descobrir que, mesmo cercado, não se pode escapar do nada; Não se pode escapar da estrada que o nada mostra, do caminho que vai te acolher. 
O nada para você é furacão. É falta de planejamento, é correria, é.. nada. 
O nada é tudo isso.. mais presença. Uma equação simples, um sorriso discreto. 
O nada é você evoluindo, é a sua caixa vazia – cheia de coisas ausentes, mas ali. 
O nada é a sua volta, depois de qualquer presença. Mais a sua presença. Mais confusão. 
Em si, o nada tem a sua importância. E você, meu amor, abra a janela em respire seu ar. Olhe para baixo e veja os traços das suas opções correrem pelo chão, e agradeça ao nada. 
Ele lhe fez ver alguma coisa, se não o nada. Fez-lhe dar valor aos nossos jogos de pernas, aos sorrisos por baixo do cobertor. Fez você brilhar em olhares secretos por segredos sussurrados em esquinas, por abraços repentinos em ruas lotadas, por uma companhia em meio a solidão da madrugada, por todo o salto de vida que a gente quer viver. 
Esse é o nada, e ele te fez tudo. Tudo que você é, tudo que você vê, tudo que é para mim. Brindemos a isso !

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Desiste

Eu sei onde você quer chegar. Olha, vou ser honesta contigo, algo me diz que você merece. Eu não sou interessante. Você entende? Sei como é, só porque eu sou bonitinha, eloquente e meio exótica, com seus olhos você enxerga uma garota inteligente, divertida, culta, impressionante, talvez boa de cama. Eu não sou nenhuma dessas coisas. Eu não tenho graça nenhuma.
Falo sério. Talvez eu até mereça essa sua atenção momentânea, mas em longo prazo sou uma garota que não funciona direito. É como se eu fosse uma vitrola antiga, com a agulha defeituosa. Se você parar para prestar mais atenção em mim, vai se dar conta que eu fico roçando no vinil e atrapalhando a música, provocando aqueles ruídos que dão agonia nos dentes. E sabe o que é pior? Eu não tenho conserto, não há peças de reposição no mercado, sou uma causa perdida. Por que você não abraça uma árvore? Vai dar na mesma.
Gostar de mim mesma não é autoestima, é humor negro. Sou realista, não passo de uma boboca vazia e sem glamour. Meu corpo faz umas promessas que meu cérebro não pode cumprir. Eu sou burra, gosto de novela e comédias românticas, não leio Sartre e esses troços.
Não é só isso. Aí do outro lado você deve estar me imaginando de calcinha e camisetão da Janis Joplin até as coxas, fazendo as unhas do meu pé, no sofá, cheia de esmaltes coloridos espalhados em volta, com aquele separador de dedinhos e tudo. Você deve achar que eu fico bebendo Carménère e escutando Ella Fitzgerald pela casa, na escuridão. Parte da sua admiração são essas visões sexies que você tem. Quer saber, sabe qual foi meu jantar? Pão, café-com-leite e banana. E agora estou usando uns óculos que tapam metade da minha cara. E aí, o que você acha?
Eu fico aqui pensando, que problema mental será que você tem pra gostar tanto assim de mim. Inábil, patética, dentes tortos, e de cabelos oleosos. O próprio bicho-do-mato. Na escola, quando eu tinha uns 14, fizemos uma viagem de final de ano para o Chile, e eu gostava de um menino. Perguntei se ele ficaria comigo e ele disse que sim, claro, se o nosso avião fizesse um pouso forçado na Cordilheira dos Andes ou coisa assim. Sempre que um cara diz que gosta de mim, acho que ele está zoando comigo. Sério, a última pessoa que ficou arrebatada por mim foi o dono de um circo, ele disse que tinha uma atração para mim, se fosse embora da cidade com o pessoal. Eu não tenho sal nem sex appeal, eu não sou legal, às vezes coloco um vestido e me revisto umas três vezes por que a roupa parece sempre do avesso. Um dia eu saí na rua depois do banho, fiz uma careta contra o vento e fiquei assim.
Não é que eu não quero me comprometer. Eu agradeço sua atenção, mas estou dando todas as chances pra você desistir. Aceite minha oferta e pense bem, caia fora, garoto. Ou eu não me responsabilizo.