Q uando a gente gosta muito de alguém, e essa
pessoa nos magoa profundamente, nos deixa com feridas que talvez nunca
cicatrizem, nós muitas vezes deixamos de acreditar, nos fechamos de certo modo.
Nos perguntamos o por que de isso ter acontecido justo conosco,se a gente não
merecia.Então por um acaso,uma coincidência,entra alguém em nossa vida,que a
principio não nos representa nada. Alguém que faz você se sentir bem, que faz
você sorrir,que segura a sua mão e te faz sentir segura. Ai mais que de repente
vem a sua mente tudo que ocorreu antes,com aquela pessoa que você confiou tanto
e te magoou. Nesse momento você cria uma barreira,para se proteger, por mais
que a pessoa te faça bem,você se mantém de certo modo afastada,para não se
magoar. Só que sem querer você acaba fazendo com essa pessoa o mesmo que já
fizeram com você. E mais uma vez você está magoada,mas desta vez é diferente,a
sua magoa é por ter magoado esse alguém,uma pessoa que não merecia,e nessa hora
passa por sua cabeça todos os momentos que você teve com essa pessoa
maravilhosa. O arrependimento que vem agora.é dilacerante,é uma dor
inexplicável.Vem agora a cabeça que você só tem duas opções,ou você segue sua
vida,deixa tudo como está,ou tenta concerta o seu erro. Nessa hora bate na
porta do coração o orgulho,que te impede de ir lá e simplesmente se desculpar e
pedir outra chance.Sua dor vai aumentando e você cria subterfúgios para ver a
pessoa,motivos bestas mais que são óbvios.Os dias vão se passando, e nada muda,
você continua com as mesmas desculpas tolas, mas sem ter uma atitude real,
então ele vai ficando cada vez mais distante, o abismo entre você é evidente,
mas por que você não pode só dizer a ele tudo que sente?! Você pensa em
deixar tudo de lado e esquecer,mas alguma coisa no seu coração diz pra você não
fazer isso.Começam então a surgir questões em sua mente que te incomodam...
Será que ele sente minha falta? Será que ele ainda pensa em mim? Será que ele
ainda sente alguma coisa por mim? Será que algum dia ele sentiu? Vem a cabeça
os momentos que vocês passaram juntos,e você sente que podia dar certo, vocês
não tinham nada a vê um com o outro, eram opostos, mas quando estavam juntos
nada importava, quando vocês se beijavam parecia que o mundo parava de girar,
se vocês se abraçavam de repente tudo fazia sentido, então você percebe que as
coisas pequenas eram as mais importantes, as que realmente faziam a diferença,
e foram essas que fizeram você se apaixonar,o jeito de fazer você se sentir
única e especial, como ninguém nunca havia feito. Então você começa a pedir a
Deus para te dar mais uma chance de ficarem juntos, e você tenta descobrir se
ele ainda sente alguma coisa por você. Se ele te abraçar o mundo vai parar, seu
coração voltar a bater, e até respirar não será importante nesse momento, vocês
não estarão unidos somente pelo corpo, mas por algo mais forte, mais intenso,
você perceberá que o sentimento ainda está ali,em algum lugar, mas que para ele
também não é fácil admitir,você percebe que de alguma forma ele precisa de
você, que apesar de você ter errado, ele guardava um sentimento puro, que não
se contaminou.
"... Ela está sempre tão dentro dela mesma que qualquer coisa que faça não é nem certa nem errada, é simplesmente o que ela podia fazer." (Caio Fernando Abreu)
segunda-feira, 16 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Você nunca vai saber
Não pretendo te contar
sobre minhas lutas mentais. Você terá nas mãos minha simplicidade e minha
leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito
carinho pra não assustar pessoas como você. Não vou ficar falando sobre a complexidade
dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer
sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra
mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Não vou dissertar sobre
minhas fragilidades e minhas inseguranças. Talvez eu te diga algumas vezes
sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço
meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta
muito comum.
Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.
Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem.
Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.
Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Ei garoto, to caindo fora falo?!
Ah nem vem com esse seu melodrama barato para o meu lado,
não vai adiantar nada.
Não é que eu não goste mais de você, eu até gosto sabe, só
que cansei de criar expectativas e você destruí-las apenas com uma palavra.
Você não quer que eu lhe diga que foi bom enquanto durou e
que o problema não é você não é? Você sabe que eu não consigo ser falsa a esse
ponto e que mentir nunca foi o meu forte, então, por favor, não me peça para
ficar, pois eu não vou.
Caramba menino cadê o seu orgulho, a sua capacidade de
manter a cabeça erguida e de se fazer de durão, cadê aquele garoto que não
ligava para o que eu fazia da minha vida e que sempre deixou bem claro que eu
nunca ia te fazer abalar?
Sinceramente?! Não esperava essa sua reação, isso não muda a
minha decisão, acabou, não quero mais e ponto final.
Fica com o meu beijo e tchau!
terça-feira, 19 de junho de 2012
E eu gostava de você, sentia saudades imensas... Não, não é
mentira é a mais pura realidade, pode perguntar para qualquer um que convive
comigo, o seu nome não saia da minha boca, só que você sempre foi inconstante
comigo, era como se valesse só a hora que você queria, depois tchau e benção.
Com isso eu fui criando certo receio sobre você, ao mesmo
tempo em que eu queria ir correndo te ver quando me ligava ou mandava uma
mensagem eu tinha medo, algo já não estava normal, e eu simplesmente cansei de
sentir saudade sozinha.
Você exerce uma força sobre mim que não sei te explicar, mas
sei controlar.
Nesse meio tempo em que você ficava comigo quando desejava,
quando tinha vontade e depois desaparecia eu fui conhecendo uma nova pessoa,
ele não, nunca foi e nunca será você mas ele sempre mostrou se importar comigo,
querer o meu bem e a minha presença sempre que viável... E eu fui me deixando
envolver pela forma que ele me tratava – me trata – e eu fui me acostumando mal
e eu fui me acostumando, me adaptando a ter alguém do meu lado o dia inteiro, a
noite inteira, alguém se preocupando comigo e decidi então me dar uma chance
com ele e foi isso que aconteceu – que está acontecendo.
Sempre fui meio assim dependente de carinho e atenção
integralmente, sempre gostei de alguém no meu pé moderadamente e ele fez o que
eu queria que você tivesse feito comigo, mostrou que se importa.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Menino
' Você me deixa meio receosa sabia?! Não, não é que eu queira modificar algo entre a gente, é só que você me confunde e muito.
Caramba menino você exerce uma força imensa sobre mim, só que
de você talvez eu queira apenas amizade agora, nada mais do que isso. Você
poderia ter sido algo a mais do que isso sim, lá no começo, se lembrasse de mim
nos finais de semana e não só naqueles momentos em que se sentia só em sua casa
e me ligava querendo me ver. Você só passou a perceber mais a minha existência
quando eu deixei de querer fazer parte da sua vida, quando deixei de querer
cuidar de você...
Está bem eu confesso, não vai ser fácil me afastar assim de
você, mas eu já venho preparando o meu psicológico para isso há alguns dias e
por enquanto isso está funcionando. O problema é que eu começo a pensar que
poderia ter dado certo se você tivesse a capacidade de ter gostado de mim no
mesmo momento em que eu gostei de você, em que eu largava as outras coisas que
eu estava fazendo para ir naqueles seus shows de rock que eu não suporto só
para ficar te olhando de longe, naqueles dias em que eu te enviava um sms
dizendo que eu queria te ver e estava com saudades, daí se você tivesse
respondido: “também estou, posso ir te ver?” já seria mais do que suficiente
para talvez colocar o meu coração em suas mãos e te dizer vamos tentar ser
felizes, só que tem que ser juntos, de hoje em diante até a eternidade topa?!
Antigamente os seus raros momentos de afetividade para
comigo já eram válidos, já me faziam se sentir bem, mas daí aconteceram várias
coisas em minha vida e eu fui aos poucos abandonando aquela parte da minha vida
em que eu fui apresentada à você, fui deixando de lado aqueles amigos e
prestando mais atenção em mim, a que tipo de pessoa eu queria ao meu lado na
minha vida e você foi se tornando obsoleto.
Você menino, não é mais um menino há muito tempo, só não
perdeu essa essência ainda e o meu problema é ter cansado de gostar de meninos
e querer um homem ao meu lado.
E esse homem veio, e por mais que no dia em que ele surgiu
em minha vida ainda existisse em meu subconsciente um pouco de vontade para que
você se tornasse ele isso não ocorreu, você continuou o mesmo menino que eu
conheci, que eu acostumei mal com tanto carinho e atenção, só que tudo entre
nós sempre foi unilateral, vinha apenas de mim, de você só surgia nas suas
crises substanciais de falta de afeto por parte dos outros, momentos esses que
eram raros, eram sim, pois você não faz mais parte de mim, do meu pensamento,
cansei do menino, decidi apostar no homem.
Não precisa vir me dizer que eu estou conturbando seus
pensamentos com isso, que agora você descobriu que realmente valia a pena
apostar em mim, em nós... Eu não quero mais mesmo, e essa ultima noite nossa
foi só para eu ter certeza de que você realmente não é o homem da minha vida e
sim apenas mais um menino que passou por ela e de meninos já estou saturada a
algum tempo, mais precisamente desde que deixei de ser menina para me tornar
mulher e mulheres gostam de homens, não de meninos, a não ser que sejam seus
filhos ou irmãos.
Me tornei mulher e continuo com a aparência de menina,
enquanto você menino, de homem só tem a aparência, nada mais, nada menos do que
isso.
Não é que eu esteja com esse meu sentimentalismo tão barato que nem sei o que dizer ou sequer fazer nos últimos dias.
Minha mente fervilha e eu não sei traduzir o que sinto, o que realmente quero.
Não sei de quem sinto falta, quem realmente amei ou amo, talvez eu nem saiba de verdade o que é esse sentimento.
Amor é complicado, fica naquela linha tênue com a realidade que eu nem sei mais onde se encaixa em minha vida.
Apenas acho algumas coisa, convivi com paixões, acho que é isso, na verdade... Não acho nada.
Minha mente fervilha e eu não sei traduzir o que sinto, o que realmente quero.
Não sei de quem sinto falta, quem realmente amei ou amo, talvez eu nem saiba de verdade o que é esse sentimento.
Amor é complicado, fica naquela linha tênue com a realidade que eu nem sei mais onde se encaixa em minha vida.
Apenas acho algumas coisa, convivi com paixões, acho que é isso, na verdade... Não acho nada.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Parecia que ia chover. O céu estava nublado, cinza, e a lua refletia através das nuvens. Ela desceu no centro da cidade e esperou no lugar marcado. Poucas pessoas passavam, olhando-a de longe, através dos vidros dos carros e dos capacetes das motos. Alguns minutos, ele chegou. Subiram uma ladeira escura, adormecida, com lojas e casas comerciais que pareciam ter levado chuva há poucos minutos. Ninguém na rua - talvez um ou dois grupos de pessoas pelas esquinas. Passaram por uma praça bem ornamentada, com bandeirinhas coloridas penduradas pelas árvores, pelos postes e telhados das casas. Dobraram à direita, numa rua cheia de casas coloridas e no mesmo formato (baixas e retangulares). As ruas molhadas, a vizinhança adormecendo, e eles entrando no grande condomínio deitado.
Numa casinha amarela de teto baixo eles entraram por uma grade e lá dentro ela descobriu que aquelas casinhas reservavam condomínios inteiros, como se fossem grandes prédios deitados. Caminharam por um longo corredor e subiram dois lances de escadas. Passaram por grades fechadas de luzes acesas nos apartamentos dos corredores, até chegarem ao último da fila. Um degrau dividia o chão da entrada do apartamento e ela entrou primeiro. Sentou-se na cadeira do computador, enquanto ele preparava a bebida. Serviu-a num copo pequeno e enquanto preparava um prato com batatas em conserva, limões e pepinos cortados em pedaços, ela o observava. Ele deve saber tanto sobre si mesmo, morando sozinho por tanto tempo, pensou ela. Tomou um gole do líquido transparente, forte, bom. Ele serviu o prato na mesa onde ficava o computador e pôs um disco para tocar. Ela olhou ao redor da pequena sala, que também servia de cozinha. Uma grande estante de livros tomava o lugar da parede que dividia a sala do quarto, um sofá estava ao lado da mesa de trabalho, onde ficava o computador. Ele sentou-se no sofá. Conversavam sobre literatura, ele mostrava suas relíquias, livros antigos e coleções clássicas de histórias em quadrinho. Nomeavam escritores, desenhistas, quadrinistas, poetas, e grandes figuras da geração beat.
Nem mesmo quando ficavam em silêncio era desconfortável. Não sabia se era a bebida, mas ela sentia-se mais em casa, na casa dele, do que na própria casa. O telefone dele tocou, e em pouco tempo um garoto nerd de camiseta branca entrava na sala-cozinha. Ela cumprimentou-o, ele serviu mais uma dose da bebida para o garoto nerd de camiseta branca, e eles conversavam - agora, sobre música. Enquanto ela bebericava ainda seu primeiro copo, ele já ia no segundo. O nerd de camiseta branca rejeitou o líquido transparente, e às dez horas e alguma coisa, os três deixaram a estante de livros, os pepinos, as batatas, os discos, as grades e os prédios deitados.
Ao dobrarem a esquina de uma rua asfaltada, subiram a ladeira que formava a praça principal do centro histórico da cidade. Casas coloridas e não molhadas estruturavam-se nas laterais da praça, e vários rostos, sons e carros movimentavam o lugar. Música, conversas, risos e sons de vômitos perpassavam por eles enquanto subiam à esquina e encontravam um casarão rosa com vários grupos de pessoas na frente. Pessoas, garrafas de vidro e plástico, copos grandes e pequenos saiam e entravam da casa rosa, que servia de casa de shows e bar. Os três - ele, ela e o nerd de camiseta branca - se sentaram numa mesa de plástico amarelo e conversas estranhas, idas ao banheiro e copos com cerveja aconteceram naquela mesa, naquele lugar, por algumas horas.
A noite acordou, o céu estava limpo e a lua incandescia os postes de luzes amarelas. Os três conversavam, a maior parte do tempo, sobre música e sexo. Era interessante conversar sobre experiências masculinas, pensou ela. Sempre é, porque você pode aprender muito com eles. Tanto que tudo o que você sabe veio disso. Os ponteiros cercavam os números nos relógios e o tempo escoava pelas cervejas quentes derramadas e piolas de cigarros jogadas no chão, carregadas pelo vento até o fim das ruas. Ela queria muito ir ao banheiro. Exatamente na hora que uma garota estava saindo da casa rosa de esquina, ela entrou. Mijou por muito tempo, saiu, lavou as mãos e caminhou de volta à lateral da casa, onde estavam seus amigos.
Não sabia por qual motivo, mas estava com a frase "Afinal, somos amigos" na cabeça desde que os convidara para curtir uma noite juntos. Há algum tempo não faziam isso - complicações não permitiam que os três se encontrassem e ficassem juntos, numa roda de conversa natural, normal - coisas que não vinham ao caso naquele momento, nem precisavam ser relembradas. Não chovia e não fazia calor - estava um clima agradável na noite e entre eles e naquela parte histórica do centro da cidade, até mesmo nas bebidas. Somos amigos e estamos curtindo uma noite agradabilíssima, pensou ela. Apenas isso.
As horas cresciam e a noite começava a ficar com sono, e quando as três horas da manhã chegaram, eles decidiram voltar para casa. O nerd de camiseta branca foi no caminho contrário, enquanto eles iam pelo mesmo caminho que chegaram. Não davam as mãos, apenas conversavam - sobre a noite, o centro, as prostitutas, os bordéis - e música, bebidas, literatura, até chegarem novamente ao apartamento dele.
Como as coisas devem ser, sem nenhum beijo roubado ou surpresas, eles entraram no quarto. Ela não viu nada da mobília, apenas deitou na cama e deixou que ele tirasse sua roupa.
Amanhecia e o sol fraco das seis da manhã entrava pela cortina da janela acima da cama. Ela levantou-se, foi ao banheiro e mijou por quase dez minutos. Ele acordou e ficou olhando-a nua caminhar pelo quarto. Confortável, era a palavra que vinha à mente dela. Não tinha vergonha de ficar assim na frente dele - esse sentimento, na verdade, ela já o perdera há algum tempo. Mas especialmente naquele apartamento ela sentia como se estivesse no próprio quarto, com todas as suas coisas - coisas que faziam parte dela, não só eram dela. Ela sumiu da vista dele quando dobrou na esquina da estante de livros. Completamente nua, ela lia os nomes e títulos dos livros no último andar da estante, quando ele abraçou-a forte pelas costas e deu-lhe um beijo na nuca.
- Quer café?
Ela assentiu.
Colocou água num bule antigo, enferrujado, que em poucos minutos já estava apitando. O café estava forte e ela sentou no sofá, enquanto ele desaparecia atrás da estante. Voltou carregando um violão marrom, de cordas de aço, e deixou o instrumento ao lado dela, no sofá. Serviu o café em duas xícaras e entregou-lhe uma. Sentou, tomou um gole, colocou a caneca na mesa e pegou o violão.
Ela pensou com quantas meninas ele fez aquilo. Pensou em quantas devem ter passado pela vida dele, pela cama dele, suado sobre o corpo dele. Então pensou que aquilo realmente não importava, e percebeu que para ele, todo momento é um momento. Percebeu que, para ele, toda mulher é diferente e todo momento passado com cada uma delas é único, do jeito que deve ser. Cada pessoa tem sua especialidade, e aquela era a dela - sentir-se confortavelmente nua tomando café e vendo-o dedilhar no violão uma bonita e delicada melodia.
O calor do café esquentava seu rosto, e a vizinhança começava a acordar. O sol entrava pelas janelas, através das cortinas. Eles continuaram ali, sentados, nus, um de frente para o outro, bebericando café e entornando músicas antigas num violão antiquado.
Numa casinha amarela de teto baixo eles entraram por uma grade e lá dentro ela descobriu que aquelas casinhas reservavam condomínios inteiros, como se fossem grandes prédios deitados. Caminharam por um longo corredor e subiram dois lances de escadas. Passaram por grades fechadas de luzes acesas nos apartamentos dos corredores, até chegarem ao último da fila. Um degrau dividia o chão da entrada do apartamento e ela entrou primeiro. Sentou-se na cadeira do computador, enquanto ele preparava a bebida. Serviu-a num copo pequeno e enquanto preparava um prato com batatas em conserva, limões e pepinos cortados em pedaços, ela o observava. Ele deve saber tanto sobre si mesmo, morando sozinho por tanto tempo, pensou ela. Tomou um gole do líquido transparente, forte, bom. Ele serviu o prato na mesa onde ficava o computador e pôs um disco para tocar. Ela olhou ao redor da pequena sala, que também servia de cozinha. Uma grande estante de livros tomava o lugar da parede que dividia a sala do quarto, um sofá estava ao lado da mesa de trabalho, onde ficava o computador. Ele sentou-se no sofá. Conversavam sobre literatura, ele mostrava suas relíquias, livros antigos e coleções clássicas de histórias em quadrinho. Nomeavam escritores, desenhistas, quadrinistas, poetas, e grandes figuras da geração beat.
Nem mesmo quando ficavam em silêncio era desconfortável. Não sabia se era a bebida, mas ela sentia-se mais em casa, na casa dele, do que na própria casa. O telefone dele tocou, e em pouco tempo um garoto nerd de camiseta branca entrava na sala-cozinha. Ela cumprimentou-o, ele serviu mais uma dose da bebida para o garoto nerd de camiseta branca, e eles conversavam - agora, sobre música. Enquanto ela bebericava ainda seu primeiro copo, ele já ia no segundo. O nerd de camiseta branca rejeitou o líquido transparente, e às dez horas e alguma coisa, os três deixaram a estante de livros, os pepinos, as batatas, os discos, as grades e os prédios deitados.
Ao dobrarem a esquina de uma rua asfaltada, subiram a ladeira que formava a praça principal do centro histórico da cidade. Casas coloridas e não molhadas estruturavam-se nas laterais da praça, e vários rostos, sons e carros movimentavam o lugar. Música, conversas, risos e sons de vômitos perpassavam por eles enquanto subiam à esquina e encontravam um casarão rosa com vários grupos de pessoas na frente. Pessoas, garrafas de vidro e plástico, copos grandes e pequenos saiam e entravam da casa rosa, que servia de casa de shows e bar. Os três - ele, ela e o nerd de camiseta branca - se sentaram numa mesa de plástico amarelo e conversas estranhas, idas ao banheiro e copos com cerveja aconteceram naquela mesa, naquele lugar, por algumas horas.
A noite acordou, o céu estava limpo e a lua incandescia os postes de luzes amarelas. Os três conversavam, a maior parte do tempo, sobre música e sexo. Era interessante conversar sobre experiências masculinas, pensou ela. Sempre é, porque você pode aprender muito com eles. Tanto que tudo o que você sabe veio disso. Os ponteiros cercavam os números nos relógios e o tempo escoava pelas cervejas quentes derramadas e piolas de cigarros jogadas no chão, carregadas pelo vento até o fim das ruas. Ela queria muito ir ao banheiro. Exatamente na hora que uma garota estava saindo da casa rosa de esquina, ela entrou. Mijou por muito tempo, saiu, lavou as mãos e caminhou de volta à lateral da casa, onde estavam seus amigos.
Não sabia por qual motivo, mas estava com a frase "Afinal, somos amigos" na cabeça desde que os convidara para curtir uma noite juntos. Há algum tempo não faziam isso - complicações não permitiam que os três se encontrassem e ficassem juntos, numa roda de conversa natural, normal - coisas que não vinham ao caso naquele momento, nem precisavam ser relembradas. Não chovia e não fazia calor - estava um clima agradável na noite e entre eles e naquela parte histórica do centro da cidade, até mesmo nas bebidas. Somos amigos e estamos curtindo uma noite agradabilíssima, pensou ela. Apenas isso.
As horas cresciam e a noite começava a ficar com sono, e quando as três horas da manhã chegaram, eles decidiram voltar para casa. O nerd de camiseta branca foi no caminho contrário, enquanto eles iam pelo mesmo caminho que chegaram. Não davam as mãos, apenas conversavam - sobre a noite, o centro, as prostitutas, os bordéis - e música, bebidas, literatura, até chegarem novamente ao apartamento dele.
Como as coisas devem ser, sem nenhum beijo roubado ou surpresas, eles entraram no quarto. Ela não viu nada da mobília, apenas deitou na cama e deixou que ele tirasse sua roupa.
Amanhecia e o sol fraco das seis da manhã entrava pela cortina da janela acima da cama. Ela levantou-se, foi ao banheiro e mijou por quase dez minutos. Ele acordou e ficou olhando-a nua caminhar pelo quarto. Confortável, era a palavra que vinha à mente dela. Não tinha vergonha de ficar assim na frente dele - esse sentimento, na verdade, ela já o perdera há algum tempo. Mas especialmente naquele apartamento ela sentia como se estivesse no próprio quarto, com todas as suas coisas - coisas que faziam parte dela, não só eram dela. Ela sumiu da vista dele quando dobrou na esquina da estante de livros. Completamente nua, ela lia os nomes e títulos dos livros no último andar da estante, quando ele abraçou-a forte pelas costas e deu-lhe um beijo na nuca.
- Quer café?
Ela assentiu.
Colocou água num bule antigo, enferrujado, que em poucos minutos já estava apitando. O café estava forte e ela sentou no sofá, enquanto ele desaparecia atrás da estante. Voltou carregando um violão marrom, de cordas de aço, e deixou o instrumento ao lado dela, no sofá. Serviu o café em duas xícaras e entregou-lhe uma. Sentou, tomou um gole, colocou a caneca na mesa e pegou o violão.
Ela pensou com quantas meninas ele fez aquilo. Pensou em quantas devem ter passado pela vida dele, pela cama dele, suado sobre o corpo dele. Então pensou que aquilo realmente não importava, e percebeu que para ele, todo momento é um momento. Percebeu que, para ele, toda mulher é diferente e todo momento passado com cada uma delas é único, do jeito que deve ser. Cada pessoa tem sua especialidade, e aquela era a dela - sentir-se confortavelmente nua tomando café e vendo-o dedilhar no violão uma bonita e delicada melodia.
O calor do café esquentava seu rosto, e a vizinhança começava a acordar. O sol entrava pelas janelas, através das cortinas. Eles continuaram ali, sentados, nus, um de frente para o outro, bebericando café e entornando músicas antigas num violão antiquado.
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